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“Estudo sobre o encabeçamento e distância entre apiários”

Já há algum tempo que ando para escrever este artigo. Os estudos que vou aqui publicar foram apresentados este ano na Avis Mellifera 2013, tendo sido uma surpresa para todos, os seus resultados.
 
Considero que podemos discutir a análise que apresento, contudo, independentemente das alterações, qualquer dos resultados dão ou dariam muito que pensar (pelo menos aos apicultores que tenham interesse numa apicultura sustentável e rentável e não numa apicultura romântica).
Este tema das distâncias entre apiários e encabeçamento das pastagens, é um tema que há décadas se discute em Portugal (veja-se os artigos do Jornal “As Abelhas” de 1985, do Eng. Vasco Correia Paixão).
 
Fui obrigado a fazer estes estudos, pois para minha surpresa, de toda a pesquisa nacional e internacional que fiz, (tendo contactado a Universidade de Salamanca, Madrid e Badajoz, bem como FNAP, outros colegas técnicos e apicultores de referência nacional), não encontrei nenhum estudo que nos possa indicar qual o encabeçamento correcto (nº de colmeias/hectare), para os mais variados tipos de flora autóctone.
 
Apenas existe referência ao número de colmeias/hectare no caso da polinização de culturas agrícolas, e mesmo estas referências não nos servem para nada, pois refere-se ao número de colmeias/hectare para que haja uma boa polinização e não para que haja uma boa produção, por exemplo de mel.
 
Da pesquisa internacional que fiz, apenas encontrei dados sobre distâncias.
 
No México a distância entre apiários é de 3 km, sendo a sua justificação que encontrei neste documento muito simples; …uma vez que o raio de acção das abelhas é de 2 a 3 km, essas são as distâncias que têm de ser respeitadas…
Em Queensland, na Austrália é de 1600 metros para 100 colmeias;
No condado de Pierce County, EUA, quando o número de colmeias é superior a 20, é de 3,22km (2 milhas);
Na maioria dos estados Australianos, a distância entre apiários comerciais é de 1,5 a 2 km, contudo, no sudoeste Australiano é de 3km. A produção média por colmeia é de 60kg, podendo ir aos 120kg em anos bons.
 
Nós em Portugal, que temos uma produção média de 15kg/colmeia, damo-nos ao luxo de permitir 100 colmeias de 800 em 800 metros, “a bota, não bate com a perdigota”.
 

ESTUDO 1

Trata-se da pressão que é exercida por outras colmeias (de apiários vizinhos) sobre o raio de acção principal das colmeias do nosso apiário.
De forma a facilitar o estudo, assumimos que será num raio de 2000 metros que as abelhas do nosso apiário (apiário teste), terão maior actividade, e será daí que retirarão a maioria dos seus recursos (caso seja uma zona com bom potencial apícola).

A verde temos o nosso apiário, a castanho o raio de 2000 metros (zona de estudo). A zona de estudo tem 1256,5 hectares.
 
Assumindo que a legislação (exceptuando o Alentejo) permite 100 colmeias numa malha de 800 em 800 metros, fomos verificar quantos raios de 2000 metros (dos apiários em redor do nosso), intersectam a zona de estudo do nosso apiário.

Preparados para ver o resultado?

 

Os resultados são deveras impressionantes!
 
A legislação nacional permite que 18 apiários (1800 colmeias), sejam instalados dentro do raio de 2000 metros do nosso apiário.
Pior que tudo, além dos 18 apiários, o raio de 2000 metros do nosso apiário é intersectado pelo raio de 66 apiários (6600 colmeias).
É o mesmo que termos 100 ovelhas numa pastagem para engordarem e nos darem lucro, contudo, permite-se que a mesma pastagem seja pastoreada por 6600 ovelhas. É no mínimo incrível… Fome não passam, mas muito gordas não ficam de certeza.
 
Agora entendo, quando o meu pai me diz que já não se vêem “torres” nos apiários como se viam antigamente (as milhares de colmeias espanholas que temos em redor das nossas, causando uma enorme pressão, nunca vão permitir isso).
 
Isto obriga a que as nossas abelhas tenham que se deslocar muito além destes 2000 metros, baixando assim a produtividade.
 
Depois deste resultado “estonteante”, fomos verificar para as distâncias de 1500 metros (do alentejo), quais seriam os resultados… e novamente, ficamos impressionados, felizmente pela positiva!

 

Para as distâncias de 1500 metros, a legislação para a região do Alentejo, apenas permite que 6 apiários (450 colmeias), sejam instalados dentro do raio de 2000 metros do nosso apiário.

O raio de 2000 metros do nosso apiário é intersectado pelo raio de 24 apiários (1800 colmeias, pois apenas são permitidas 75 como máximo/apiário).
 
Serão estas densidades sustentáveis para quem quer praticar uma apicultura profissional?
 
Até quando vamos continuar a enganar-nos a nós próprios?
 
A profissionalização da apicultura portuguesa está a ser uma realidade. Não podemos permitir erros deste género.
 
Após ter concluído este estudo, foi muito gratificante ver que o mesmo foi de encontro aos artigos do Jornal “As Abelhas” de 1985 do Eng. Vasco Correia Paixão. Seguem alguns excertos:
 

ARTIGO 1

 

 

ARTIGO 2

 
Como vimos, este problema já não é de agora. Estes artigos têm 28 anos… é uma vergonha…
 

ESTUDO 2

Este segundo estudo é sobre as produções/colmeia que a nossa lei, supostamente acredita para distâncias máximas de 800 metros.
Uma vez que não encontramos nenhum estudo sobre a produção média das colmeias nas diferentes floras melíferas, fizemos as contas ao contrário e fomos verificar as produções assumidas na lei e no PAN.
 
– O raio de 2000 metros (1256,5 hectares), permite a colocação de 1900 colmeias;
– O PAN, refere produções médias de 22 kg/colmeia;

Cálculos:

Produção = 1900 colmeias x 22 kg = 41.800 kg
 
Produção/ha = 41.800kg / 1256,5ha = 33,27 kg/hectare
 
Caso não exista pressão, e esta área seja apenas das nossas 100 colmeias, quer dizer que cada uma delas tem potencial para produção de 418kg/colmeia!
 
Um hectare são 100 metros x 100 metros, 33,27 kg de néctar, mesmo repartidos ao longo dos dias, queria dizer que ao caminharmos 100 metros no rosmaninho, saíamos de lá com as calças meladas de néctar. Parecem absurdos os resultados deste segundo estudo, sei que “valem o que valem”, contudo, parece-me que devemos repensar este assunto e tomar decisões urgentemente.
 
No caso de fazermos as contas para a legislação vigente na região do Alentejo, voltamos a ter resultados muito mais aceitáveis.
 
– O raio de 2000 metros (1256,5 hectares), permite a colocação de 450 colmeias;
 

Cálculos:

 
Produção = 450 colmeias x 22 kg = 9.900 kg
Produção/ha = 9.900kg / 1256,5ha = 7,88 kg/hectare
 
7,88 kg/hectare, parecem resultados bem mais reais, contudo, talvez ainda um pouco longe dos verdadeiros.
 
Julgo que seria urgente, aumentar as distâncias entre apiários para 1500 metros, com um máximo de 75 colmeias/apiário, tal como já acontece no Alentejo.
 
Deveria ser criada uma tabela com uma escala, com um aumento de distância/por colmeia a partir das 25 colmeias.
 
Exemplo:
 
– 11 a 25 colmeias – 500 metros (apicultura por hobbie, que normalmente possuiu baixas densidades);
– Por cada 5 colmeias acima de 25, acrescentava-se X metros à distância. Neste caso seriam 100 metros, atingindo os 1500 quando houvessem 75 colmeias no apiário.
 
Penso que um sistema deste género seria muito mais justo e ajustado a uma boa prática apícola.
 
Espero que estes estudos venham a servir para alguma coisa, nem que seja para nos fazer reflectir sobre a legislação que temos em vigor, discutindo possiveis alterações.
 
Cada vez mais me mentalizo que as decisões que tem havido neste sector, têm sido feitas por colegas apicultores que praticam a apicultura por hobbie, na base do romantismo. Respeito muito essa forma de vida, que, aliás, já a pratiquei, mas nos tempos que correm temos de olhar “lá longe no horizonte” e verificar que a profissionalização da apicultura nacional está a ser uma realidade, devendo todas as decisões ter por base essa mesma optica, ouvindo atentamente as dificuldades e opiniões de quem já é “um verdadeiro profissional”.
É urgente criar um projecto sério que estude as diferentes florações regionais, de forma a podermos solucionar este problema, pois é inaceitável continuarmos a trabalhar no “escuro”.
 
Só peço a todos os colegas que tiveram paciência para ler este extenso artigo, que reflictam e pensem sobre este assunto. Quanto aos decisores políticos e dirigentes do sector, caso tenham tido “pachorra” para ler estas palavras, por favor, não fiquem “impávidos e serenos”, façam alguma coisa.
 
João Tomé
…um apicultor, pela apicultura…
 
  • Anónimo
    Anónimo
    07.10.2013

    Olá João Tomé
    Parabéns pelo artigo, que considero muito bom. Precisamos de mais informação desta e sobretudo de inconformismo perante situações que se arrastam, vejam bem, há mais de 28 anos.

    Mas também precisamos de fiscalização, pois o que adianta ter encabeçamentos corretos se depois não há fiscalização? O que adianta ter as colmeias tratadas, registadas se depois há quem o não faça? O que adianta cumprir as regras e se depois somos invadidos por colmeias de Espanha?

    Penso que as associações poderiam ter um papel mais importante a desempenhar neste sentido.

    Como referes, a profissionalização do sector está aí, espero, que em força. E acho que temos de ser nós, os apicultores, a dizer o que queremos.

    Posso dizer que pratico uma apicultura ainda pouco profissional e ainda há pouco tempo, mas não consigo perceber porque não mudam as coisas? Vários problemas têm sido identificados por vários técnicos e em várias ocasiões. O que faz a FNAP? O que faz a Sociedade dos Apicultores de Portugal? O que fazem os técnicos da DGV? O que fazem as associações de apicultores? O que fazem no Fórum Apícola Nacional?

    Espero ter “espicaçado” algumas pessoas no sentido da mudança.
    Abraço
    Paulo Silva

  • Cristóvão Oliveira
    Cristóvão Oliveira
    07.10.2013

    Grande estudo que sustenta a prática que desenvolvemos nos nossos apiários há muitos anos. Nunca temos mais de 20 a 30 colmeias juntas e estão sempre separadas a mais de 1000m de outros apiários. Caso o apiário tenha que estar mais perto, devido às contingências de propriedade, reduzimos para metade: 10 a 15 colmeias. Obrigado João. Chegamos à esta conclusão na nossa zona após recolha anual de dados da relação Produção vs. Nº Colmeias vs. Apiários (distâncias) de mais de dez anos… Obrigado João Tomé…

  • Unknown
    Unknown
    07.10.2013

    Boa tarde,

    O artigo é extenso e completo. Acho que, como é hábito por cá, o problema nem está na tanto na lei. Existe um sistema de identificação de parcelas agrícolas que não é usado para calcular a distância entre colmeias… Na verdade pode-se registar um apiário sem que ninguém verifique as distâncias. Por outro lado acho excessivo que alguém seja impedido de colocar colmeias num terreno seu, porque o vizinho já tem um apiário por perto. A propriedade privada tem de ser mais respeitada (claro que teria, neste caso de se impor um limite baixo no n.º de colmeias).

    Num assunto não relacionado: como tem sido o comportamento da colónias de ligustica? Lembro-me de ter lido um post do ano passado que ia no bom sentido!

    Parabéns pelo blog. Cumps

  • Rosmaninho
    Rosmaninho
    07.10.2013

    Bom dia,
    O que está em causa sobre as distâncias é que a legislação é desaquada. Se existem problemas eles têm que ser discutidos e tomadas decisões que vão de encontro aos interesses dos apicultores.
    Quanto às Ligusticas, essas, já eram… tenho apenas algumas F2 e F3… É uma raça que não se adapta ás nossas condições. Talvez na apicultura por hobbie seja uma boa aposta, contudo devemos relar pela nossa abelha nativa. A Abelha Iberiensis.

    Cumprimentos,

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