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Modelos de Colmeias… Qual o melhor?

Este é um assunto bastante discutido por todos os apicultores, sendo as opiniões bastante diversificadas, onde todos apontam vantagens e desvantagens dos distintos modelos.

Com este artigo, não pretendo falar nos distintos modelos… pretendo sim, falar na nossa experiência e ir diretamente ao fundamental.

No nosso caso iniciamos a nossa exploração com o modelo reversível, pois é o modelo de colmeia que já vinha de familia, nunca tendo conhecido outro. É um modelo de duplo ninho, tal como acontece com o modelo “Langstroth”.

– Colmeia reversível com duplo ninho –
Este modelo reversível, é um modelo que caso trabalhemos com duplo ninho com ceras puchadas, é uma “verdadeira bomba”, sendo um modelo óptimo para fazer novos enxames, pois temos 20 quadros disponíveis para multiplicar as colónias.

É um modelo que, para mim é o ideal para nos iniciarmos na apicultura, e a partir daí construirmos o caminho que entendermos.

Apesar de nunca termos tido outro modelo na nossa exploração, somos conscientes que nunca teríamos tido o sucesso que tivemos, caso tivéssemos usado outro modelo de colmeia, única e exclusivamente pela facilidade de manuseamento e facilidade de fazer novas colónias.

Nestes últimos 3 anos temos dedicado muito a nossa exploração à produção de enxames e rainhas, com recurso à transumância, onde as colónias são partidas sistematicamente entre as florações, reduzindo consideravelmente a sua população.

Este ano de 2015, deixamos cerca de 300 colmeias para produção de mel na primeira transumância, colmeias que não foram desdobradas no rosmaninho, nem no Castanheiro. Foi uma experiência interessante, contudo deixou-nos a pensar bastante sobre o modelo que tanto “apreciamos” e tão importante tem sido na nossa exploração.

Ao sermos obrigados a retirar o sobreninho para movimentar as colmeias, reduzindo desta forma o número de viagens (aumento da capacidade de carga), faz com que o ninho fique demasidamente sobrepovoado, havendo a obrigação de colocação imediata de alças ou sobreninhos após a descarga.

Esta experiência, tem-nos feito ler e refletir bastante e sobretudo pensar nas diversas experiências que já tivemos noutros locais, com outros modelos de colmeias.

Daqui surgiu a ideia que teriamos de experimentar colmeias com uma câmara de cria superior ao modelo que usamos, tendo chegado mesmo a ponderar experimentar a colmeia Lusitana, pois daria para aproveitar as bases de transumância entre outro material que já possuímos.

Entretanto, nada melhor do que pensar nas diversas experiências que tivemos noutros países, com apicultores que usam outros modelos de colmeia, tendo surgido a colmeia “Dadant”, que tivemos oportunidade de ver em França e trabalhar no Sul de Espanha.

Após um pesquisa mais profunda sobre este modelo de colmeia (Dadant), ficamos espantados com a quantidade de países europeus que a usa profissionalmente, e inclusivamente em Portugal, conhecemos 3 apicultores profissionais que a usam e elogiam como sendo uma colmeia extraordinária.

Durante a nossa pesquisa, lemos bastante, tendo encontrado um livro muito interessante escrito por Dadant em 1920, onde resumimos de seguida alguns apontamentos sobre esta colmeia e sua origem:

Dadant quis encontrar um modelo de colmeia com um ninho capaz de acomodar as rainhas mais prolíficas, contudo que não fosse demasiadamente grande nem demasiadamente pequeno, reservando as alças apenas para o mel.
– CHARLES DADANT –
Ao ter a colmeia langstroth por comparação, uma colmeia com duplo ninho, verificou que as rainhas tinham uma tendência generalizada em resistir a descer ao ninho de baixo, mantendo-se em postura no sobreninho. Esta situação levou a que optasse por um ninho único, contudo com um volume/capacidade suficiente para que uma boa rainha possa encontrar o espaço suficiente, para que a sua postura diária seja máxima, sem quebras.
O ponto principal que aponta para a selecção de uma colmeia com um ninho único com grande capacidade é o facto de permitirmos que uma boa rainha, durante o período de alta produção, possa colocar a sua capacidade máxima de ovos por dia, evitando ao máximo que perca tempo, quando encontra barreiras à postura, desde limites de madeira dos quadros, alvéolos obstruídos com mel e pólen, subir ao sobreninho ou alças à procura de espaço, etc., pois todo este tempo perdido, multiplicado pelas diversas semanas de produção faz a diferença.
– Colmeia Dadant –

Devemos permitir que as rainhas coloquem ovos durante várias horas seguidas, sem interrupções, este é o ponto principal que Dadant defende, contudo não é apenas este ponto que traz vantagens. Durante o inverno, este tipo de colmeias permite que haja maiores reservas de mel e pólen, especialmente as que se encontram no topo dos quadros, acima do “cluster” de abelhas.

Dadant, faz algumas apreciações negativas às colmeias pequenas, das quais destaca as menores reservas de mel e pólen para o Inverno, menos quantidade de abelhas para passar o Inverno e uma maior tendência para enxameação.
Refere também, que o facto das colmeias pequenas terem uma base mais pequena, provoca que nas colmeias mais produtivas se tenham que colocar mais alças, diminuindo consideravelmente a capacidade de ventilação da colmeia.
As vantagens que refere para colmeias pequenas, são o preço mais baixo e a facilidade de carga e transporte por terem menos peso.
——–

Isto fez-nos pensar, em quantas e quantas vezes verificamos os ninhos e estes estão completamente bloqueados de criação operculada, havendo apenas 1 ou 2 quadros de criação aberta… sendo obrigados a desbloquear o ninho e dar espaço à raínha para que continue em postura.

São acções que consomem tempo e acima de tudo reduzem o potencial máximo de postura das raínhas de qualidade, pois na maioria das vezes quando damos espaço no ninho já este estava bloqueado.

Foi também interessante encontrar um estudo realizado na Extremadura espanhola entre 1990 e 1993, onde vários apicultores profissionais montaram apiários mistos de colmeias Layens e Dadant, de forma a compararem a produção entre estes modelos, pois há muito que reconheceram que a colmeia layens é menos produtiva.

Os resultados foram muito interessantes, onde apesar das colmeias Dadant no primeiro ano terem tido de puchar as ceras do ninho e alças, tiveram uma produção média de 8,58% superior às colmeias Layens (durante 4 anos).
Retirando este primeiro ano, em que as abelhas tiveram de puchar ceras, fazendo apenas a média dos últimos 3 anos, as colmeias Dadant produziram mais 24% de mel que as colmeias Layens.

As medidas da colmeia Dadant podem ser variáveis, contudo, em Portugal e Espanha são as seguintes: Medidas exteriores da colmeia Dadant (Comp. x Larg. x Alt.): 51,5 x 43 x 30 cm.

Basicamente tem a altura da colmeia lusitana e o comprimento da colmeia langstroth.

De toda a pesquisa e informação que temos recolhido apresentamos várias vantagens e desvantagens no modelo Dadant:

VANTAGENS

– Aumento na produção média de mel e pólen/colmeia;
– Aumento nas reservas de mel e pólen, havendo uma poupança monetária em alimentação artificial;
– Diminuição considerável da enxameação;
– Aumento da eficiência e rentabilidade do trabalho;
– Aumento do leque de material disponível que pode ser usado na nossa exploração, uma vez que é uma colmeia usada em diversos países;

DESVANTAGENS

– Necessidade obrigatória de possuir rainhas novas todos os anos;
– Obrigação de possuir grua para carregar e descarregar as colmeias, devido ao seu peso;
– Ausência de produção com rainhas velhas;
– Maior dificuldade em multiplicar colónias;
– Aumento do esforço físico e risco de lesões graves em algumas operações, devido ao peso das caixas;
– Necessidade em haver experiência amadurecida em apicultura;

Este modelo de colmeia também é chamado de “Industrial” em Espanha, nome que também foi adoptado por alguns em Portugal, contudo “o seu a seu dono”, algo que os espanhois nunca respeitaram, uma vez que até o nome da colmeia Langstroth, patentearam em Espanha como sendo “Colmena Perfeccion”, um profundo disparte que tem levado a interpretações erradas.

Com este artigo, não queremos criar confusões e dizer que o modelo Dadant é melhor que outros modelos de colmeias, contudo, é um modelo que deverá ser mais divulgado e experimentado em Portugal, sendo segundo alguns o modelo de colmeia dos grandes profissionais.

É um modelo de colmeia, que a meu ver só para quem faz transumância, tenha experiência em apicultura, sabendo manter as colónias fortes e saudáveis e consiga alguma disciplina em manter rainhas novas fará sentido.

Apesar de tudo isto, continuamos a aconselhar o modelo reversível para quem se está a iniciar, pois é um modelo que nos permite recuperar bastante rápido das percas de colónias anuais, que em alguns casos são bastante elevadas no primeiro e segundo ano de actividade.

Ao iniciarmos a actividade apícola com colónias de um único ninho, tornará este processo de recuperação mais lento e difícil… sendo prova disso a maior percentagem de projetos com dificuldades, os que optaram pelo modelo de colmeia lusitana para se iniciarem (pelo menos dos que temos conhecimento).

Cabe a cada um de nós tomar as decisões mais adequadas para o futuro da nossa exploração, contudo, deveremos saber ser maleáveis, permitindo que a evolução seja continua e nunca estagne.

João Tomé
…um apicultor, pela apicultura…

  • Unknown
    Unknown
    11.01.2016

    Boa noite,

    Uso o modelo dadant desde a década 50 (pelo meu bisavô) e relativamente às medidas que uso são 50x50x32 (12 quadros)

    Cumprimentos,
    Apicultor gpm

  • Anónimo
    Anónimo
    11.01.2016

    João, muito bom o artigo. Mais um para ajudar na discussão da melhor colmeia a usar ou escolher. No entanto, na minha opinião, há também a questão de localização geográfica a ter em conta. Foi referido, mas sem grande importância.

    Gostava somente de discordar quando dizes: "…sendo prova disso a maior percentagem de projetos com dificuldades, os que optaram pelo modelo de colmeia lusitana para se iniciarem…". Pois a maior percentagem de projetos com dificuldade não prova que a escolha de um tipo e colmeia foi desadequado, mas sim que é consequência de maus maneios por variadíssimas razões, das quais poderia elaborar uma lista extensa, tais como amadorismo do promotor ou obtenção de enxames suspeitos 🙂 Mais não digo.

    É somente a minha opinião.
    Um abraço e continuação desse bom trabalho.
    Bom ano.

  • Jú
    11.01.2016

    Boa tarde João
    Desde que tive uma conversa com o Sr. Abílio (Colmeicentro) que tenho andado a amadurecer a ideia de começar a converter os meus apiários para o modelo Dadant. Tendo lido o livro que referes do C.P. Dadant ainda mais convencido estou que é um caminho que devo experimentar.

    Algumas das minhas dúvidas são:
    — há fabricante em Portugal que assegurem um fornecimento estável/contínuo de ninhos, quadros e cera?

    Obrigado pela tua atenção.
    Eduardo Gomes

  • Rosmaninho
    Rosmaninho
    11.01.2016

    Bom dia Eduardo,

    Sim existem fabricantes que asseguram o fornecimento. Qualquer um deles, pelo menos dos que conheço. Cump.

  • Rosmaninho
    Rosmaninho
    11.01.2016

    Bom dia,

    Sim concordo contigo nessa questão, mas eu já estou a assumir aquilo que referes, e apenas quero dizer que numa fase de recuperação de efetivos, quem tem reversível recuperou mais facilmente do que os que têm lusitana.

    Abraço

  • Unknown
    Unknown
    20.01.2016

    Boa tarde.

    Achei o artigo interessante, relançando a discussão de qual o melhor tipo de colmeia…

    Recordo que a Lusitana já é um derivado da Prática, que por sua vez resultou de uma adaptação da Dadant, feita para o nosso país pelo Padre Manuel Tavares de Sousa e pelo Dr. Manuel Amorim.

    As reduções sucessivas de dimensão, que as adaptações sofreram, deveram-se no dizer dos seus autores, à excessiva volumetria para a capacidade das nossas abelhas.

    As medidas da Dadant eram segundo creio 50 X 50 X 32. As medidas que refere de 51.5 X 43 X 30 (ou melhor 51.5 X 42.5 X 30)referem-se à colmeia Jumbo, baseada na Langstroth e não na Dadant e que inicialmente começou a ser fabricada pela extinta firma Alberto da Silva Duarte , em Coimbra, que foi a empresa que trouxe a Langstroth para o nosso país (daí a largura de 42.5 que era a mesma da Langstroth. Os 43 de largura foram adoptados pelas firmas de Rio Mau, para a adaptar à medida com que já fabricavam a Lusitana… obrigando assim o comprador a ficar fidelizado por incompatibilidade de medidas – coisas à portuguesa). Também este modelo Jumbo acabou por ser abandonado, no dizer dos apicultores que adquiriram algumas e com quem na época contactei (por finais dos anos 70), os ninhos eram demasiado grandes para a generalidade das nossas zonas de produção. E eram apicultores profissionais e semiprofissionais, dos raríssimos (contavam-se pelos dedos de uma mão) que na altura já faziam criação e selecção de rainhas.

    Eu, depois de muitas tardes à conversa no extinto Posto Central de Fomento Apícola, com o Sr. Engº. Correia Paixão e com a Srª. Engª Emília Pagani, optei pela Langstroth desde o início, primeiro à maneira da Reversível, só com caixas de ninho mas, com o excessivo peso das caixas cheias de mel, passei para o uso de ninhos simples com uma alça. Funcionava muito bem. A rainha usa o ninho e a alça para a postura, reduz o bloqueio e normalmente desce bem. No entanto, mesmo em enxames fortes, no final da época os quadros laterais da alça ficam abandonados…

    Actualmente, ante a perspectiva da entrada da Aethina, não me parece desejável uma colmeia volumosa que as abelhas não possam preencher completamente, podendo deixar zonas desguarnecidas… apenas um pensamento que vale o que vale…

    Abraços,

    Abelhasah

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